Ao investigar aquilo que sabemos daquilo que não sabemos, há uma divertida distinção. Há aquelas coisas que sabemos que sabemos, usadas no dia a dia, por exemplo dirigir um automóvel, ou fazer contas no supermercado.
Há outras coisas que não sabemos que sabemos, tal como regras gramaticais implícitas na língua, para alguém que nunca estudou gramática ou a operação do controle da tevê para uma criança que ainda não fala.
Há ainda aquelas coisas que sabemos que não sabemos. Tal como fazer cálculos de matemática complexa, ou tocar determinado instrumento. Nestas, saber que não conhecemos já é uma forma de conhecimento. Aqui a ignorância é uma maneira antecipada de conhecimento, e saber-se ignorante, é conhecer algo, o limite, que diz parte daquilo que não sabemos.
Entretanto, há aquelas coisas que não sabemos que não sabemos. Esta é a mais radical das ignorâncias, o domínio do absolutamente desconhecido. Neste nem é possível citar um exemplo, pois dar um exemplo seria já conhecê-lo um pouco.
Fragmentação e reconciliação do real: considerações sobre razão tecnológica e ética
filosofia, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »O texto serviu de base para comunicação no II Seminário de Ciência e Meio Ambiente da Faculdade Anchieta de São Bernardo do Campo – SP.
Resumo: A apresentação procurará investigar as características da razão científica clássica e as mudanças que ela sofre atualmente em função do avanço da técnica e as consequências culturais. Mostraremos em termos gerais, as características da razão técnico-científica, o que a faz tão fecunda e os limites intrínsecos de tal razão, que caracterizamos como fragmentação. Enfim, dadas as consequências sociais da ciência técnica, argumentaremos sobre a necessidade de um princípio responsável como o par da razão tecnológica e a maneira que tal princípio poderia ajudar a resolver impasses. A tal princípio chamamos de reconciliação.
O texto completo pode ser baixado aqui:
20081114-testa-fernando-facanchieta-fragmentacaoreconciliacaoreal
Vale a pena conferir o seminário sobre o mal organizado pelo Núcleo de Estudos de Mística e Santidade da PUC-SP.
NEMES: http://nemespucsp.wordpress.com/
Seminário: http://nemespucsp.wordpress.com/2008/09/13/i-seminario-nemes/
O conceito de alienação é central na obra de Tillich. Ao caracterizar o ser, ele faz uma distinção entre o ser em essência e ser em existência. Ser essencialmente é aquilo do qual um ente participa e que faz dele ele mesmo. Por exemplo, uma árvore concreta participa do “ser árvore”. Isto está imbricado na própria linguagem quando dizemos: isto é uma árvore. O caráter platônico deste modo de ser é evidente, o mundo das idéias é a essência e a verdade está deste lado, e as coisas subsistem somente por esta participação, onde a existência seria doxa. O nominalismo nega que este ser possua algo além do simples termo, ele não remeteria para nada além do uso da palavra “árvore” no nosso exemplo.
(Aqui caberia uma discussão interessante sobre se a matemática possuiria um caráter nominalista ou se ela o seria idealista, especialmente em relação à física. Ela pode ser idealista, por mostrar as essências matemáticas dos fenômenos naturais apreensíveis através do uso da razão. Porém, ela pode ser também nominalista, por indicar que as leis gerais somente dão conta dos fenômenos empíricos e não se pronunciam necessariamente sobre o que as coisas são em sentido estrito, isto é, ela não postula essências.)
Ser existencialmente é o ente concreto que nos está posto diante, o isto. Existe uma diferenciação intrínseca entre a existência e a essência que está posta no mundo. A existência humana e não-humana se encontraria, portanto, separada de sua essência.
O potencial é o essencial, e existir, isto é, estar fora da potencialidade, é a perda da verdadeira essencialidade. Não é uma perda completa, pois o ser humano ainda permanece em seu ser potencial ou essencial. Ele o recorda e, através dessa recordação, participa no verdadeiro e no bom. Ele está dentro e fora do âmbito das essências. (TILLICH 2005, p.318)
O sistema filosófico de Hegel tentará superar tal contradição e resolver o hiato. Para Hegel, o mundo, como processo da auto-realização divina, superaria o irracional das coisas, pois a existência é auto-manifestação da essência (TILLICH 2005, p.320). Mas seus os críticos apontarão suas armas exatamente para aí: a existência se apresenta inexoravelmente alienada tanto em seu dado social (Marx) quanto em seu dado interior (Kiekegaard), e nem na vida como tal (Shopenhauer, Nietzsche).
Penso em alargar o conceito de alienação para além da condição humana, para a natureza física. Se o ente existencial é alienado de seu ser essencial, não é somente no homem que isto acontece. O homem abre o olho da consciência dentro de sua própria condição alienada. Esta sua condição é anterior a qualquer juízo moral, está na sua “matéria”. Falaremos mais sobre isto especialmente nas relações que têm com os projetos científicos modernos.
Bibliografia
TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
X ABHR – Fé de Habermas e Descrença de Ratzinger: ciências naturais e estado entre conservadorismo e modernização.
Uncategorized, filosofia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »Esta comunicação é a reedição para o X Simpósio da ABHR, de um trabalho apresentado em disciplina de filosofia da religião (post http://cienrelfi.org/?p=49).
Resumo: Com o atual advento do que foi chamado de novo ateísmo, o debate sobre a validade da religião como conhecimento ressurge com força, virulência e panfletagem. Trata-se, no entanto, da reedição de uma discussão mais antiga que ocorre no interior de um processo que é entendido como modernização. Este processo modernizador se alimenta por um lado, do sucesso do método em campo científico-tecnológico projetando-o para fora do seu campo de origem, e, por outro, da negação do passado humano em suas instituições tradicionais. Pretende, assim, reconstruir a sociedade em outras bases e, em suas versões mais otimistas, resolvê-la. Assim, a modernização da sociedade consome as instituições pré-modernas e isto se reflete no diálogo entre as ciências naturais e teologia. Joseph Ratzinger argumenta que não se pode dar primazia à razão prescindindo da contribuição das outras formas de vida. Para isso usa um argumento cético-empírico: os estados e a maioria podem produzir a violência e a ciência pode produzir a bomba e, hoje, a manipulação de seres humanos. Logo, tentaremos entender o que é que Habermas entende por modernização, o que acontece filosoficamente na criação da ciência no início da modernidade, a influência que esta teve na constituição dos estados, a crítica de Ratzinger a esta influência e a discussão sobre o novo ateísmo.
Artigo completo (.pdf) aqui: 20080401-testa-fg-gp-fundamentalismoortodoxia-habermas-vs-ratzinger
Observando os debates gerados no acerca da tramitação no STF sobre a pesquisa com células-tronco pode-se ver que a retórica pró-pesquisa procede através de um duplo argumento: que o embrião não é ser humano e portanto não há sacrifício de vida humana para tais pesquisas, e que a pesquisa é humanista, pois os tratamentos salvariam vidas.
Acerca do primeiro argumento, que o embrião não seria humano, conta-se com o fato de que até determinado número de dias não há sistema nervoso constituído e o embrião não ’sente’ nada. A desqualificação do que é humano e a definição do que é vida humana é extremamente problemática para uma sociedade. O mesmo procedimento foi utilizado na escravidão e no nazismo: desqualifica-se e desfigura-se a imagem do que é homem, o interlocutor não se identifica mais com o outro (atividade tipicamente humana) e alivia-se, assim, o peso ético da ação. Definir ‘vida humana‘ é uma tarefa problemática pois a ausência de dor não é razoável. Assim, joga-se fora o princípio fundamental de precaução no direito.
A qualificação do que é humano através do que chamo de antropomorfismo cognitivo é outro aspecto problemático. Através da eleição do que é semelhante ao homem, feita pelo indivíduo de maneira automática, baseando-se no que ele ’sente’, produz a aberração de considerar mais humano o cão domesticado do que o embrião: o cão interage muito mais do que uma “mera célula”. Este argumento foi utilizado pela apologeta pró-pesquisa Dr. Zatz. De certa forma, somos condenados a sermos seres antropomórficos: identificamos aquelas características nos outros, sejam homens ou animais, de acordo com as nossas próprias características e faculdades. O que é problemático aqui é a perda do realismo científico em vistas à outros interesses.
A deixa acima nos induz ao segundo argumento, que a pesquisa teria um caráter humanista, ele se mostra mais como uma maquiagem. Esta retórica não está preocupada com conhecimentos objetivos, ou seja, sobre afirmações que tenderiam à veracidade das proposições e do qual o princípio de precaução é aliado. Mas está mais preocupada em na utilidade pragmática da pesquisa, a saber: fama para os pesquisadores e dinheiro para empresas. Neste caso, preocupa o fato de que, realmente, o interesse nestas pesquisas está muito menos interessada na saúde da população e mais na fama de pesquisadores e em questões econômicas.
Enfim, há também o argumento forte de que os embriões produto de fertilizações in vitro inviáveis estão aí e não podem ser utilizados para implantação em óvulos. Neste caso, perde-se o foco da questão, pois a própria fertilização in vitro, como regulamentada hoje é questionável. Por que razão devemos ter três óvulos fecundados para uma única implantação uterina? Se o procedimento gera embriões inviáveis, que certamente morrerão, então é o próprio procedimento que é problemático: a geração deliberada de seres humanos inviáveis.
Um efeito comum, nestes debates, é o deslocamento da resolução do discurso ético para o discurso legal, e portanto, político. Funciona assim: há dificuldade em saber a propriedade ética de determinada possível ação (para aqueles que não têm critérios objetivos), portanto, resolve-se através da maioria. O que todos acharam que é certo, passa, assim, a sê-lo. Certamente é problemático, pois a maioria também já achou que judeus deviam ser eliminados, ou que negros podiam ser escravizados. A responsabilidade da propaganda é enorme aqui. Ora, a declaração universal de direitos humanos está fora do jogo da maioria justamente para salvaguardar o que não é negociável: o ser humano. A malandragem, no caso dos embriões, é que se ele não for humano, não é sujeito de direitos e criam, assim, uma referência circular no argumento que procura se auto-sustentar.
Assim, sustento o critério de precaução, que diz que enquanto houver mínima suspeita razoável de que há vida humana, então, ela deve ser protegida.
O ‘Humanismo Ridículo’ Proposto por Luiz Felipe Pondé. Crítica da Modernidade entre Dostoiévski e Pio IX.
Uncategorized, por klautau No Comments »Este trabalho busca compreender o conceito de humanismo ridículo, estabelecido por Luís Felipe Pondé, em seu livro Crítica e Profecia – A filosofia da religião em Dostoiévisk (1997) e em seu artigo Epistemologia Agônica e Disfuncionalidade Humana: um ensaio de teologia pessimista (2001) publicado na Rever, revista de estudos da religião. Como método investigativo, Pondé sugere a filosofia da religião com elemento crítico para compreender, por um lado, a literatura profética de Dostoiévisk e por outro estabelecer uma avaliação da abordagem do fenômeno religioso pelo viés das Ciências da Religião em seu paradigma científico na modernidade. Ao lado de Dostoiévisk, apresentamos também a encíclica Quanta Cura (1864), do papa Pio IX, juntamente com o Syllabus (1864) como crítica à modernidade do século XIX, fundamentada também neste humanismo ridículo, raiz do que é entendido pelo cânon católico como erros graves do tempo presente.
Novo ateísmo entre modernidade e conservadorismo
filosofia, por Fernando Gregianin Testa 1 Comment »Este trabalho apresentado para a disciplina de filosofia da religião explora uma tese arriscada. Aproximando a atual onda de livros apologéticos de um ateísmo de caráter científico (Dawkins) de uma reedição de um debate já ocorrido no iluminismo.
Resumo: Qualquer tentativa de estabelecer uma aproximação entre religião, ou mais precisamente, teologia cristã, e ciências naturais impõe a aceitação, ao menos em princípio, de que a religião e a teologia têm algo a dizer sobre a natureza que seja válido, que, de certa forma, possa ser considerado como conhecimento. Com o atual advento do que foi chamado de novo ateísmo , o debate ressurge com força, virulência e panfletagem. Trata-se, no entanto, da reedição de uma discussão antiga que ocorre no interior de um processo que é entendido como modernização. Este processo modernizador se alimenta por um lado, do sucesso do método em campo científico-tecnológico projetando-o para fora do seu campo de origem, e, por outro, da negação do passado humano em suas instituições tradicionais. Pretende, assim, reconstituir a sociedade em outras bases e, em suas versões mais otimistas, resolvê-la. Assim, a modernização da sociedade consome as instituições pré-modernas e isto se reflete no debate sob a suspeita da pertinência do diálogo entre as ciências naturais e teologia. Ratzinger argumenta que não se pode dar primazia à razão prescindindo da contribuição das outras formas de vida. Para isso usa um argumento cético-empírico: os estados e a maioria podem produzir a violência e a ciência pode produzir a bomba e a manipulação de seres humanos.
Portanto, tentaremos entender o que é, no entender de Habermas, a modernização, o que é que acontece filosoficamente na criação da ciência no início da modernidade, a influência que esta teve para pensar os estados, a crítica de Ratzinger à esta influência e a discussão sobre o novo ateísmo.
Para o texto completo, acesse aqui: 20080110-testa-fg-fehabermasdescrencaratzinger.pdf

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