Boaventura e o conhecimento

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Na tradição filosófica e teológica do ocidente, o desejo sempre jogou papel fundamental como motor originário da busca do conhecimento. A afirmação, talvez, mais famosa neste sentido está  na abertura do primeiro livro da Metafísica de Aristóteles. Cada um a seu modo, Agostinho, Tomás e Boaventura, também reconheceram no desejo o motor originário do conhecimento. Entretanto, se o conhecimento está associado ao desejo, bastaria desejar para conhecer? Na estrutura do pensamento do cristianismo, este desejo poderia se enganar quanto ao seu objeto, abrindo espaço para a idéia da necessidade da graça para que ele seja correto. A graça, atuando sobre o desejo, produziria a vontade correta, que orientaria a intelecção para a verdade, que existe plenamente só em Deus. A graça é, portanto, a garantia para que o conhecimento seja orientado à verdade. Boaventura parece concordar com isto ao dizer : “A graça é o princípio da retidão da vontade e da iluminação da inteligência.” (BOAVENTURA, Itinerarium, I). Mas ao contrário de se traduzir em um triunfo da razão pela garantia de um Deus, como o faria muito posteriormente Descartes, Boaventura reconhece que o conhecimento neste mundo é sempre precário. O erro, portanto, tem sua origem na situação contingente humana, sendo necessária a graça para orientá-lo, modulado pelo consentimento da vontade humana para isso (Cf. BOAVENTURA, Itinerarium I.7). Parece que a própria razão está marcada pela condição da precariedade da condição humana e por isso é que, segundo Boaventura, o processo de conhecimento da verdade se coloca em um continuum com a santidade e a contemplação. A idéia do seu Itinerarium Mentis in Deum é essa, a de que a razão, através da correta disposição da vontade pelo auxílio da graça, se coloque em via à contemplação (BONI 2008), pois para ele, a plena verdade pode existir somente em Deus. Portanto, a graça é o transcendental através do qual a cognição atinge o conhecimento, que se traduz em Boaventura em argumentações racionais. O exercício da razão se torna um processo indistinto da própria transcendência e veículo da verdade. As proposições e argumentações, o encadeamento lógico presente no trecho do Itinerarium tem o objetivo, como o título diz, de elevar o espírito humano até o máximo de sua possibilidade. A partir daí a razão começará a ver nas próprias coisas do mundo físico a forma exemplar, a estampa, do Criador, o seu modelo.

Bibliografia

BONI, Luís A. Para uma leitura do ‘Itinerarium mentis in Deum’ de S Boaventura. Revista Portuguesa de Filosofia, v. 64, p. 437-463, 2008.

BOAVENTURA. Escritos Filosófico-Teológicos. Tradução Luis Alberto de Boni, Jerônimo Jerkivic. Porto Alegre: Edipucrs, 1998. Contém os escritos: Brevilóquio; Itinerarium Mentis in Deum; Redução das Ciências à Teologia; Cristo, Único Mestre de Todos.

GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. (Paris: 1986) São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Você sabe que sabe?

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Ao investigar aquilo que sabemos daquilo que não sabemos, há uma divertida distinção. Há aquelas coisas que sabemos que sabemos, usadas no dia a dia, por exemplo dirigir um automóvel, ou fazer contas no supermercado.
Há outras coisas que não sabemos que sabemos, tal como regras gramaticais implícitas na língua, para alguém que nunca estudou gramática ou a operação do controle da tevê para uma criança que ainda não fala.
Há ainda aquelas coisas que sabemos que não sabemos. Tal como fazer cálculos de matemática complexa, ou tocar determinado instrumento. Nestas, saber que não conhecemos já é uma forma de conhecimento. Aqui a ignorância é uma maneira antecipada de conhecimento, e saber-se ignorante, é conhecer algo, o limite, que diz parte daquilo que não sabemos.
Entretanto, há aquelas coisas que não sabemos que não sabemos. Esta é a mais radical das ignorâncias, o domínio do absolutamente desconhecido. Neste nem é possível citar um exemplo, pois dar um exemplo seria já conhecê-lo um pouco.

Joguinho epistêmico

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Ao ler o compêndio de ensaios sobre espitemologia de John Greco e Ernest Sosa, fiquei pensando em divertidos quebra-cabeças epistêmicos. Alguns dos autores que colaboraram argumentam em favor do racionalismo como condição necessária para o conhecimento. Dito de outra forma: todo conhecimento, para ser tal, deve ser racional. Nada mais óbvio, e, portanto, correto! Certo? Nem tanto… 

De cara, devemos perguntar então: o que é o racional? Ou, mais fácil: quando algo é racional? Respondendo a esta última: quando alguém apresenta razões, argumenta em favor do que afirma. Então, para que algo possa ser considerado como racional, ele pressupõe a linguagem, pois somente através da linguagem é que podemos apresentar razões, argumentos. 

Considere-se, agora, o caso do bebê Ian, que presenciei pessoalmente: ele sabe que ao apertar o botão do DVD player a gaveta se abrirá e isso o diverte. Mas ele ainda não sabe falar. Devemos admitir que ele tem o conhecimento de como abrir a gaveta, mas este conhecimento não pode ser considerado como racional, pois isto implica que ele apresente razões para seu conhecimento, o que pressupõe a linguagem, que ele ainda não domina! Portanto, há conhecimentos que não são racionais.

Agora transporte este experimento para o caso da religião. A vovó que vai à missa ao domingo consegue apresentar razões para sua crença? Ela possui a linguagem para argumentar a favor? Se vovó não conseguir, seu conhecimento não é racional (ou não é um conhecimento, se dissermos que a racionalidade é conditio sine qua non para um conhecimento). Mas no caso do padre que estudou teologia, ele conseguirá apresentar argumentos bastante articulados, e racionais, para sua crença. Portanto, devemos admití-lo como um conhecimento, mesmo que ele não nos convença.

E o que dizer da experiência mística?

Divertido, não?

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GRECO, J; SOSA E. Compêndio de Epistemologia. São Paulo: Loyola, 2008.

Fragmentação e reconciliação do real: considerações sobre razão tecnológica e ética

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O texto serviu de base para comunicação no II Seminário de Ciência e Meio Ambiente da Faculdade Anchieta de São Bernardo do Campo – SP.

Resumo: A apresentação procurará investigar as características da razão científica clássica e as mudanças que ela sofre atualmente em função do avanço da técnica e as consequências culturais. Mostraremos em termos gerais, as características da razão técnico-científica, o que a faz tão fecunda e os limites intrínsecos de tal razão, que caracterizamos como fragmentação. Enfim, dadas as consequências sociais da ciência técnica, argumentaremos sobre a necessidade de um princípio responsável como o par da razão tecnológica e a maneira que tal princípio poderia ajudar a resolver impasses. A tal princípio chamamos de reconciliação.

O texto completo pode ser baixado aqui:

20081114-testa-fernando-facanchieta-fragmentacaoreconciliacaoreal

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