Paul Tillich e a alienação

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O conceito de alienação é central na obra de Tillich. Ao caracterizar o ser, ele faz uma distinção entre o ser em essência e ser em existência. Ser essencialmente é aquilo do qual um ente participa e que faz dele ele mesmo. Por exemplo, uma árvore concreta participa do “ser árvore”. Isto está imbricado na própria linguagem quando dizemos: isto é uma árvore. O caráter platônico deste modo de ser é evidente, o mundo das idéias é a essência e a verdade está deste lado, e as coisas subsistem somente por esta participação, onde a existência seria doxa. O nominalismo nega que este ser possua algo além do simples termo, ele não remeteria para nada além do uso da palavra “árvore” no nosso exemplo.

(Aqui caberia uma discussão interessante sobre se a matemática possuiria um caráter nominalista ou se ela o seria idealista, especialmente em relação à física. Ela pode ser idealista, por mostrar as essências matemáticas dos fenômenos naturais apreensíveis através do uso da razão. Porém, ela pode ser também nominalista, por indicar que as leis gerais somente dão conta dos fenômenos empíricos e não se pronunciam necessariamente sobre o que as coisas são em sentido estrito, isto é, ela não postula essências.)

Ser existencialmente é o ente concreto que nos está posto diante, o isto. Existe uma diferenciação intrínseca entre a existência e a essência que está posta no mundo. A existência humana e não-humana se encontraria, portanto, separada de sua essência.

O potencial é o essencial, e existir, isto é, estar fora da potencialidade, é a perda da verdadeira essencialidade. Não é uma perda completa, pois o ser humano ainda permanece em seu ser potencial ou essencial. Ele o recorda e, através dessa recordação, participa no verdadeiro e no bom. Ele está dentro e fora do âmbito das essências. (TILLICH 2005, p.318)

O sistema filosófico de Hegel tentará superar tal contradição e resolver o hiato. Para Hegel, o mundo, como processo da auto-realização divina, superaria o irracional das coisas, pois a existência é auto-manifestação da essência (TILLICH 2005, p.320). Mas seus os críticos apontarão suas armas exatamente para aí: a existência se apresenta inexoravelmente alienada tanto em seu dado social (Marx) quanto em seu dado interior (Kiekegaard), e nem na vida como tal (Shopenhauer, Nietzsche).

Penso em alargar o conceito de alienação para além da condição humana, para a natureza física. Se o ente existencial é alienado de seu ser essencial, não é somente no homem que isto acontece. O homem abre o olho da consciência dentro de sua própria condição alienada. Esta sua condição é anterior a qualquer juízo moral, está na sua “matéria”. Falaremos mais sobre isto especialmente nas relações que têm com os projetos científicos modernos.

Bibliografia

TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005.

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