O perfeito e o divino

antropologia, crítica, religião Add comments

Riviera de São Lourenço é uma cidade à beira mar, um condomínio chique criado artificalmente nas proximidades de Bertioga para férias de veraneio dos ricos de São Paulo. Ao chegar, um portal recebe entregando folhetos com instruções tipo como separar o lixo e eventos que estão a acontecer naqueles dias. Tudo é quase perfeito, daquele tipo de perfeição óbvia que todo kitsch tem: palmeiras, grama bem cortada, piscinas, prédios com guaritas e casas muito bonitas tipo comerciais de margarina. Se eu tirasse uma foto de um ângulo qualquer da varanda do apartamento que generosamente um amigo cedeu para a produção intelectual importantíssima deste que vos escreve e apresentasse a alguém ao acaso, este não saberia distinguir em que lugar do mundo se encontra a paisagem. Isto faz parte do efeito mágico do kitsch no imaginário e nos desejos profundos internalizados e naturalizados nos seres humanos que às vezes freqüento (não, provavelmente não é você que leu até aqui). Penso imediatamente no capítulo sobre o kitsch e a negação da merda que Milan Kundera escreveu em seu famoso livro A insustentável Leveza do Ser ao ver uma série de palmeiras sobre o gramado que segue a orla ao longo de todo o território do condomínio acabando exatamente onde começa o terreno de fora, onde – aí sim! – arbustos, casas esparsas e muita mata atlântica se harmonizam num caos criativo. As pessoas, mais mulatas e que vêm trabalhar neste não-lugar que é Riviera, são na maioria de Bertioga, a cidade vizinha que, no dizer do cartaz na entrada, é beneficiada com seis mil empregos com a instalação do condomínio.

Entre o intervalo de leitura de um livro e escrita de um parágrafo, na praia, quatro playboys arrogantemente corriam com quadriciclos e davam cavalos-de-pau sob os olhos invejosos de um garoto que os observava enquanto sua irmã fechava o boteco à beira-mar.

Como não pensar na miséria moral? Nestas condições, meu vício especulativo dispara automaticamente suas hipóteses investigativas sobre as condições de possibilidades da miséria moral através da elaboração de casos-tipo: se um rico utilizar seu poder para promover alguma ação boa, ele estará moralmente justificado em ter uma propriedade em Riviera? Se um pobre, ao não possuir uma casa em Riviera, estará moralmente escusado de sua inveja em ter uma casa e um quadriciclo para dar cavalos-de-pau na areia e, então finalmente, poder ele também desfrutar das delícias da arrogância aos olhos de outrem? E eu, que não tenho nem quadriciclos nem casas na praia e não sou miserável, sou moralmente justificado ao fazer esta análise e me colocar, assim, no patamar dos iluminados? Questões como estas em geral são incômodas para aquela análise plana da sociedade sob a ótica de classes.

Enquanto isso, em Bertioga, no início da noite, a quermesse organizada pela paróquia para arrecadar fundos juntava tudo que havia de disponível. As barracas de cachorro-quente, quentão e pastel infestavam de cheiro de fritura o ar, o cachorro pulguento se coçava na entrada da igreja, uma caixinha com barbante imitava o som de uma galinha maluca para um povo que se juntava na entrada da igreja para ouvir o padre dizer: “na procissão deste ano, a santa não quer tomar banho no mar como no ano passado!”. Ali, nesta beirada de igreja onde tudo se misturava: forró e vaneirão, fritura, cachorro, reza, galinha, criança, mulatos, ali mesmo, aquele povo mandava lá sua reza para seu Deus.

Riviera? Silenciava.

2 Responses to “O perfeito e o divino”

  1. Hugo Marcelo Says:

    Oi Testa,

    Bem interessante o seu texto… Principalmente a parte que você coloca a pertinência, ou não, de se fazer a análise sociológica que, inconcientemente, somos grandes inquisitores. O mundo vai muito além da simples divisões de classes.

    Unido,

    Hugo Marcelo

  2. Rafael Proença Says:

    mt bem escrito, Testa.

    penso que a análise moral deve ser mais microscópica. o que a pessoa fez antes, comprou, vendeu e possui não influencia seus méritos no momento presente. assim, se um rico estiver praticando uma coisa idiota essa coisa não é mais nem menos idiota por ele ser rico. e se o menino pobre inveja o rico e deseja ser idiota, esse desejo não é mais nem menos idiota por conta da pobreza do menino. o julgamento deve ser feito então somente com base no momento presente.

    será? não tenho a menor confiança de que isso que acabei de escrever sobreviveria a uma análise mais profunda.

    abraço!

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