Ao ler o compêndio de ensaios sobre espitemologia de John Greco e Ernest Sosa, fiquei pensando em divertidos quebra-cabeças epistêmicos. Alguns dos autores que colaboraram argumentam em favor do racionalismo como condição necessária para o conhecimento. Dito de outra forma: todo conhecimento, para ser tal, deve ser racional. Nada mais óbvio, e, portanto, correto! Certo? Nem tanto…
De cara, devemos perguntar então: o que é o racional? Ou, mais fácil: quando algo é racional? Respondendo a esta última: quando alguém apresenta razões, argumenta em favor do que afirma. Então, para que algo possa ser considerado como racional, ele pressupõe a linguagem, pois somente através da linguagem é que podemos apresentar razões, argumentos.
Considere-se, agora, o caso do bebê Ian, que presenciei pessoalmente: ele sabe que ao apertar o botão do DVD player a gaveta se abrirá e isso o diverte. Mas ele ainda não sabe falar. Devemos admitir que ele tem o conhecimento de como abrir a gaveta, mas este conhecimento não pode ser considerado como racional, pois isto implica que ele apresente razões para seu conhecimento, o que pressupõe a linguagem, que ele ainda não domina! Portanto, há conhecimentos que não são racionais.
Agora transporte este experimento para o caso da religião. A vovó que vai à missa ao domingo consegue apresentar razões para sua crença? Ela possui a linguagem para argumentar a favor? Se vovó não conseguir, seu conhecimento não é racional (ou não é um conhecimento, se dissermos que a racionalidade é conditio sine qua non para um conhecimento). Mas no caso do padre que estudou teologia, ele conseguirá apresentar argumentos bastante articulados, e racionais, para sua crença. Portanto, devemos admití-lo como um conhecimento, mesmo que ele não nos convença.
E o que dizer da experiência mística?
Divertido, não?
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GRECO, J; SOSA E. Compêndio de Epistemologia. São Paulo: Loyola, 2008.
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