Quem terá coragem do exercício de interioridade para além daquele da propaganda da “meditação faz bem à saúde”? Podes acabar por voltar como outro, se voltar…
Assim, talvez pela primeira vez na vida (eu, considerado como alguém que medita todos os dias!), tomei a lâmpada e, deixando a zona aparentemente clara das minhas ocupações e das minhas relações quotidianas, desci ao mais íntimo de mim mesmo, ao abismo profundo, donde sinto confusamente que emana meu poder de ação. Ora, à medida que eu me afastava das evidências convencionais com que é superficialmente iluminada a vida social, eu me dei conta de que escapava de mim mesmo. A cada degrau que descia, em mim se desvelava um outro personagem, cujo nome exato eu já não podia dizer e que não me obedecia mais. E quando tive que deter a minha exploração, pois o caminho me faltava sob os passos, havia a meus pés um abismo sem fundo donde saía, vindo não sei de onde, a vaga que na verdade eu ouso chamar de minha vida.
– Pág 53, Pierre Teilhard de Chardin. O Meio Divino. São Paulo: Cultrix.
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