Wilhelm Dilthey: A religião entre "experiência" e "hermenêutica"

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de Gianfranco Morra
in Deus na filosofia do século XX. São Paulo: Loyola, 1998.

[p37] Dilthey se pergunta qual é o papel da religião na espiritualidade humana e na formação dos sistemas culturaisç procura descobrir a essência perene da religião, sem desdenhar as mudanças, as quedas e as renovaçõesç é, ao mesmo tempo, o agudo fotógrafo e o intérprete preocupado da luta entre o caráter absoluto dar eligião e a relatividade de suas encarnações históricas.

Dilthey é devedor de Shleiermarcher, pois concorde com este que a religião é imediata, e que a hermenêutica é o método para captar sua essência. Porém, apesar da experiência religiosa, o erlebnis, permanecer sempre subjetiva, ela é também fruto do contexto histórico. Esta tensão entre subjetivismo religioso e relativismo histórico acompanha Dilthey no seu percurso. Dilthey supera o intimismo e o sentimentalismo de Schleiermarcher ampliando o Erlebnis religioso, primário e autêntico, numa Weltanschauung religiosa [p40]. Mas a própria teologia, “deve continuamente deter-se no seu processo de clarificação intelectual e reencontrar a sua força no dado fundamental, obscuro e dinêmico da experiência religiosa, que é a relação vital com o Uno-Todo, mediante a oração e o sacrifĩcio”.[p41]

Nessas intuições do mundo, sempre se conserva um núcleo obscuro, especificamente religioso, que o trabalho conceitual dos teólogos jamais é capaz de explicar e de justificar.

Dilthey também é devedor do historicismo alemão, que naquela época conhecia seu auge, especialmente de Baur. A religiosidade apresenta na história sua potência. O Erlebnis se manifesta justamente aí: “A religiosidade cristã é um desenvolvimento histórico da religiosidade européia. Não pode ser restridta aos primórdios: “a catolicidade dos séculos XII e XIII foi um progresso em relação a eles, e a Reforma, igualmente, foi um progresso em relação a esse estário.”
Em relação aos dogmas, Diltey diz que eles não esgotam a religião, mas apenas expmrimem de modo crifrado o sentir religioso de uma época, o qual é um elemento de um todo mais vasto, que é a história das religiões, na qual diversa e sucessivamente se encarna o único e perene Erlebnis da “religio”.

Portanto, a religião manifesta sua imediatez (Scheleirmarcher) no processo histórico, de indivíduos historicamente condicionados. Aí é que se pode captar uma permanência da religião salvando-a do relativismo, do subjetivismo e do niilismo que naqueles tempos se faziam sentir. Porém, segundo Morra, isso fica somente na exigência e ainda por se fazer:

A tentativa de Dilthey foi de conserver, no interior da ” razão histórica” , aquele tanto de universalidade que é necessário para atribuir um sentido à vida e permitir uma compreensão entre os homens. A própria religião é historicizada por Dilthey e, ao mesmo tempo, reconhecida numa sua universalidade meta-histórica e consciencial. Trata-se, portanto, de uma tentativa fracassada.[p47]

Enfim, ele receberá uma crítica de Husserl, que acusará o Weltanschauung como relativista:

O historicismo, se elaborado coerentemente, termina como subjetivismo extremo. Então as idéias de verdade, teoria, ciência, bem como todas as idéias, perderiam sua validade absoluta. Que uma idéia tenha validade significaria apenas que ela é uma formação objetiva do espírito tida como válida; ela, para valer como coisa de fato, determinaria o pensamento. Não haveria de fato validade absolutamente ‘em si’, a qual é o que é, ainda que nenhuma humanidade a realize na história.

Husserl elaborará a fenomenologia que tanto influenciará posteriormente outros pensadores, que sensíveis à situação historicamente condicionada das diferentes manifestações religiosas, farão uma fenomenologia histórica das religiões. (Eliade).

O Pragmatismo na religião: James

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De acordo com os nossos princípios pragmáticos não podemos rejeitar qualquer hipótese se dela decorrerem conseqüências úteis para a vida. As concepções universais, enquanto objeto de explicação, podem ser tão reais para o pragmatismo como o são as sensações particulares. De facto, não terão sentido nem realidade se não tiverem utilidade. Mas se tiverem alguma utilidade será esse o seu sentido. E o sentido será verdadeiro se essa utilidade se enquadrar bem com todas as outras na vida. (James, William.O Pragmatismo, 8a conferência.)

A partir deste princípio podemos entender as argumentações, feitas por James, da inutilidade das especulações teóricas de teologia abstrata sobre a religião. Diz de maneira irônica:

Na verdade, porém, como vai ela (a teologia dogmática) com seus argumentos? Vai com eles tão mal quanto vai com os argumentos em favor da sua existência. Não somente os idealistas pós-kantianos lhes negam raízes e ramos, mas também é um fato histórico puro e simples que eles nunca converteram ninguém que tivesse encontrado, na compleição moral do mundo, tal como a experimentou, razões para duvidar de que um bom Deus pode tê-la elaborado. (As variedades da experiência religiosa, p.278. Cultrix. )

Com a mesma linha ele irá às turras contra o idealismo. O idealismo é eficiente em descrever a experiência e dar articulação sub speciae filosófica, mas é incapaz, através de processos conceituais, de produzí-los na individualidade. (p.282) Assim a filosofia ocupa um lugar secundário na experiência religiosa. Porém, ela poderá tratar as idéias religiosas como se fossem hipóteses, e ajudar na eliminação das inúteis e sofisticar a elaboração das válidas.

“Pode oferecer mediação entre diferentes crentes, e concorrer para que se instaure um consenso de opinião. Pode fazê-lo de maneira tanto mais bem sucedida quanto melhor souber discriminar os elementos comuns e essenciais dos elementos individuais e locais das crenças religiosas que estiver comparando.
Não vejo por que razão uma Ciência das Religiões crítica dessa natureza não possa, no final das contas, comandar uma adesão pública tão geral quanto a comandada por uma ciência física. (…) Teria de ajustar-se à experiência pessoal através de todas as suas reconstruções críticas. jamais poderia afastar-se da vida concreta, nem trabalhar num vácuo conceitual. Teria que confessar para sempre, como toda ciência confessa, que a sutileza da natureza foge diante dela, e que suas fórmulas não passam de aproximações. (Op Cit, p.283)”

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