Os grandes temas da Idade Média – A razão

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Para Tomás de Aquino a razão pode conhecer Deus, pois Deus é logos, e o homem, criado à sua imagem e semelhança, pode, através da natureza, aproximar-se da verdade, e consequentemente de Deus. O homem também pode produzir teologia quando a razão reflete sobre dados revelados e aproxima-se assim mais diretamente da verdade. Porém,

p.148-149 Dessa situação de equilíbrio em Santo Tomás passa-se para uma muito diferente em Duns Escoto e em Ockham. (…) O homem, que é razão, fará uma filosofia racional, porque aqui se trata de um lógos. Em contraposição, a teologia é sobrenatural; a razão pouco tem a fazer nela; é, antes de tudo, práxis.
Em Ockham se acentuam estas tendências escotistas. Para Ockham, a razão será um assunto exclusivamente humano. A razão é sim, própria do homem, mas não de Deus; este é onipotente e não pode estar submetido a nenhuma lei, nem sequer à da razão. (…) “A partir desse momento, a especulação metafísica se lança, por assim dizer, numa vertiginosa carreira, na qual o lógos que começou sendo essência de Deus, vai terminar sendo simplesmente essência do homem. É o momento, no século XIV, em que Ockham vai afirmar, de maneira textual e taxativa, que a essência da Divindade é arbitrariedade, livrearbítrio, onipotência, e que, portanto, a necessidade racional é uma propriedade exclusiva dos conceitos humanos.”

Na citação, Zubiri continua de maneira impressionante a dizer:

No momento em que o nominalismo de Ockham reduziu a razão a uma coisa de foro íntimo do homem, uma determinação puramente humana, e não essência da Divindade, nesse momnto o espírito humano também fica segregado desta. Portanto, sozinho, sem mundo e sem Deus, o espírito humano começa a se sentir inseguro no universo” (Zubiri: Hegel y el problema metafísico.)
(…)A razão volta-se para os objetos aos quais é adequada, aqueles que pode alcançar. Quais são eles? Antes de tudo, o próprio homem; em segundo lugar, o mundo, cuja maravilhosa estrutura começa a ser descoberta então: estrutura não só racional, mas matemática. O conhecimento simbólico a que o nominalismo nos levou se adapta à índole matemática da natureza. E esse mundo independente de Deus – de quem recebeu seu impulso criador, mas que não tem de conservá-lo – transforma-se no outro grande objeto (p.150) para o qual se volta a razão humana, ao se tornar inacessível à Divindade. O homem e o mundo são os dois grandes temas: por isso o humanismo e a ciência da natureza, a física moderna, serão as duas ocupações magnas do homem renascentista, que se encontra afastado de Deus.

Marías, Julián. História da Filosofia (Madrid, 1939) – Martins Fontes, 2004.

O Mal e o Poder. O Simbólico do Um Anel em O Senhor dos Anéis – Diego Klautau

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Este artigo trata da simbólica do Um Anel, ponto fundamental em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. A partir do diálogo com Santo Agostinho, através das categorias de iniância e livre-arbítrio, e de Paul Ricoeur, através das categorias de mito e símbolo, o Um Anel é compreendido por desejo de poder sobre homens, terras e conhecimento. Nesse sentido, a realidade histórica de J.R.R. Tolkien e sua visão agostiniana favorecem uma análise das três funções do símbolo, propostas por Ricoeur: o cósmico, o onírico e o poético.
Interessantíssima leitura, altamente recomendável!
Clique aqui para ter acesso ao texto (pdf).

Os grandes temas da Idade Média – Os universais

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Os universais são os conceitos de gênero e espécie. Um copo pode ser de vidro, alto, reto, etc. Porém, a idéia de copo como conjunto existe na realidade ou somente na mente? Este é um dos problemas enfrentados durante praticamente toda a idade média. Começa com o realismo, idéia de que os universais existem de fato na realidade, com Santo Anselmo e Guilherme de Champeaux (séc XI-XII) e acaba praticamente com o nominalismo de Duns Escoto e Guilherme de Ockham.

“A posição de Duns Escoto abre caminho para o nominalismo. A partir de então, e em especial no século XIV, vão se multiplicar as distinções e vai-se afirmar cada vez mais a existência dos indivíduos. Ja em Duns Escoto, sem excluir a forma específica, são formalitates. Ockham dá um passo a mais e nega totalmente a existência dos universais na natureza. São exclusivamente criações do espírito, da mente; são termos (daí o nome de terminismo dado também a essa linha). E os termos são simplesmente signos das coisas: substituem na mente a multiplicidade das coisas. Não são convenções, mas signos naturais. As coisas são conhecidas mediante seus conceitos, e esses são universais; para conhecer um indivíduo preciso do universal, da idéia: quando, com Ockham, os universais passam a ser entendidos como meros signos, o conhecimento passa a ser simbólico. Ockham é o artífice de uma grande renúncia: o homem vai renunciar a ter as coisas e se resignará a ficar só com seus símbolos. Será isso que tornará possível o conhecimento simbólico matemático e a física moderna, que nasce nas escolas nominalistas, sobretudo de Paris. A física aristotélica e a medieval queriam conhecer o movimento, as causas mesmas; a física moderna se contenta com os signos matemáticos de tudo isso; segundo Galileu, o livro da natureza está escrito com signos matemáticos; teremos uma física que mede variações de movimento, mas renuncia a saber o que o movimento é. “

Os grandes temas da Idade Média – A criação

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Em História da Filosofia (Martins Fontes 2004) Julián Marias afirma o seguinte sobre um dos problemas centrais, a criação, enfrentados pela filosofia medieval, a escolástica:

p.142 “O mundo não se basta a si mesmo para ser, não tem razão de ser suficiente; está sustentado por Deus na existência para não cair no nada; é preciso, pois, além da criação, a conservação. A ação de Deus em relação ao mundo é constante; tem de continuar fazendo com que exista a cada momento, e isso equivale a uma criação continuada. Portanto, o mundo necessita sempre de Deus e é constitutivamente necessitado e insuficiente. É isso o que pensa a Escolástica dos primeiros séculos. O fundamento ontológico do mundo se encontra em Deus, não só em sua origem, mas de modo atual. No nominalismo dos séculos XIV e XV, contudo essa convicção vacila. Pensa-se que não é necessária a criação continuada, que o mundo não necessita ser conservado. continua-se pensando que é um ens ab alio, que não se basta a si mesmo, que recebeu sua existência das mãos de seu criador; mas acredita-se que esse ser que Deus lhe dá ao criá-lo lhe basta para subsistir; o mundo é um ente com capacidade de continuar existindo por si só; a cooperação de Deus em sua existência, depois do ato criador, se reduz a não aniquilá-lo, a deixá-lo ser. Desse modo, à idéia de criação continuada sucede a da relativa suficiência e autonomia do mundo como criatura. O mundo, uma vez criado, pode existir por si só, abandonado à suas próprias leis, sem a intervenção direta e constante da Divindade.
Vemos como o desenvolvimento do problema da criação na Idade Média leva a conferir uma maior independência à criatura em relação ao criador e, portanto, conduz a um distanciamento de Deus. Por distintas vias, ao término dessa etapa todos os grandes problemas da metafísica mediaval levarão o homem a uma idêntica situação.”


É interessante observar que os problemas filosóficos abordados internamente na própria reflexão da escolástica acabam por produzir os elementos germinais da crise que separará o homem de Deus e da natureza presentes no final da modernidade e sentidas até hoje.

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