Tecnoprofetas e religião implícita

cre, religião, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

São, no mínimo, instigantes, as mutações da religião deste nosso tempo presente. Clifford Geertz, que certamente pode ser contado entre os antropólogos mais importantes do século passado, dizia em um artigo que não existe na atualidade o que chamam de um retorno da religião. Simplesmente porque elas nunca foram embora:

Enquanto se desenrola a história política explosiva do século nascente, o desdobramento mais notável – e o mais surpreendente – que as ciências sociais se vêem obrigadas a enfrentar na cena mundial é com certeza aquilo que se usa denominar, muitas vezes erroneamente, como “o retorno da religião”.

Erroneamente porque na verdade a religião nunca desapareceu – foi a atenção das ciências sociais que se desviou a outros campos, enquanto estiveram dominadas por uma série de pressupostos evolutivos que consideravam o compromisso com a religião uma força em declínio na sociedade, um resíduo de tradições passadas inexoravelmente erodido pelos quatro cavaleiros da modernidade: secularismo, nacionalismo, racionalização e globalização. (GEERTZ 2006)

Nada mais lúcido quando nos concentramos principalmente sobre as mais ou menos novas formas sociais que as religiões tradicionais adquirem. Entretanto não é somente nos vínculos entre fiéis e instituições que a religião se manifesta, mas em outras e diversas formas que eclodem justamente lá onde muitos diriam ser o reduto secular por excelência: nas ciências naturais e nas tecnologias. Estas novas religiosidades não são evidentes para o olho não treinado, pois se manifestam mais ou menos nos subterrâneos de outras manifestações culturais de um modo implícito. A religião implícita recebe cada vez mais atenção no meio acadêmico de estudos religiosos por demonstrar ser um instrumento conceitual particularmente eficaz na compreensão destes novos fenômenos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos tanto pelo excesso crítico interessado em desmantelar uma percepção falsa quanto pela superficialidade ingênua não interessada em ver problemas onde eles existem.

Na aparente crise das instituições, nesta nossa modernidade tardia, a apropriação, apresentação e naturalização das tecnoformas nas subjetividades tentam justamente responder àquelas questões que sempre estiveram presentes para o homem: a angústia da existência. Portanto, religião! E justamente implícita e mutante, parece ser o caso que segue. Em uma publicação sob o título The Singularity is Near (A Singularidade Está Próxima, sem tradução para o português), o cientista e engenheiro Ray Kurzweil, de fato prega uma crença inusitada. Para ele, as tecnologias irão resolver nosso principal problema: o dilema do sofrimento e da morte. Se você conseguir viver até 2029, quando chegará, então, a Singularidade: um momento único e crucial na história da humanidade na qual as tecnologias (particularmente as nano, bio, info) conseguirão produzir seres híbridos humano-técnico, ciborgues, e onde os computadores também terão consciência e “espírito”. Para Kurzweil:

“A Singularidade representará a culminação da fusão do nosso pensamento e existência biológicos com nossa tecnologia, resultando em um mundo que ainda é humano mas que transcende nossas raízes biológicas. Não haverá distinção, pós-Singularidade, entre humanos e máquinas ou entre realidade virtual e física. Se você perguntar o que ainda permanecerá humano naquele mundo, será simplesmente esta qualidade: nós somos a espécie que busca de maneira inerente estender suas conquistas (reach) para além das limitações atuais.” (KURZWEIL 2005 p.9)

A tecnologia, neste momento de transição iminente em que vivemos, seria aquilo que nós mesmos construimos e que, no entanto, nos supera indo além de nós mesmos. Ela tomará a frente das coisas deste mundo e, através dela, resolveremos todas aquelas questões que nos afligiram desde sempre: a dor, o sofrimento, a angústia, a morte. 

(to be continued…)

 

Referências

GEERTZ, Clifford. O Futuro das Religiões. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 maio 2006.

KURZWEIL, Ray. The Singularity Is Near. New York: Penguin Books, 2005.

 

Fragmentação e reconciliação do real: considerações sobre razão tecnológica e ética

filosofia, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

O texto serviu de base para comunicação no II Seminário de Ciência e Meio Ambiente da Faculdade Anchieta de São Bernardo do Campo – SP.

Resumo: A apresentação procurará investigar as características da razão científica clássica e as mudanças que ela sofre atualmente em função do avanço da técnica e as consequências culturais. Mostraremos em termos gerais, as características da razão técnico-científica, o que a faz tão fecunda e os limites intrínsecos de tal razão, que caracterizamos como fragmentação. Enfim, dadas as consequências sociais da ciência técnica, argumentaremos sobre a necessidade de um princípio responsável como o par da razão tecnológica e a maneira que tal princípio poderia ajudar a resolver impasses. A tal princípio chamamos de reconciliação.

O texto completo pode ser baixado aqui:

20081114-testa-fernando-facanchieta-fragmentacaoreconciliacaoreal

Tecnologia da Informação, Cibernética e Salvação

religião, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

Este texto serviu de base em aula para discussão sobre alguns aspectos religiosos presentes no programa da informática.

Resumo: Procuramos iniciar uma investigação acerca das características religiosas presente na tecnologia da informação e cibernética, as promessas de salvação, os desejos de transcendência e as implicações éticas. Para isto utilizamos não uma análise da sociologia, mas uma investigação filosófica. Concluímos identificando que tais promessas salvíficas se apresentam como uma nova amálgama de uma carência reconciliatória que, dada a própria natureza do conhecimento da informática, performa uma substituição fortuita e precária.

O texto completo pode ser baixado aqui: 20081031-testa-fernando-salvacao-cibernetica-texto

Intenção na produção científica e tecnológica – I

ciência, poder, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

Todo artefato tecnológico tem um propósito. Talvez o propósito seja de fato o que possa melhor caracterizar o que é tecnológico do que científico. Mas dito desta forma pode parecer dicotômico o que, na realidade, é somente um artifício pedagógico-explicativo. Sabemos que as fronteiras estão borradas e que muita, se não toda, produção científica está carregada de intenções e propósitos. Assim, o próprio produto científico se ressente das intenções daqueles que o produzem, e, portanto, é direcionado (LYOTARD). Mesmo que esta produção esteja condicionada pela ciência normal (KUHN) é lógico que o direcionamento não pode provir da própria produção, mas de outras esferas humanas. Este é o momento em que entram outros valores, virtudes, objetivos, intenções, de outros campos humanos– o religioso, ético, político, econômico – que fornecem elementos para a tomada de direção no desenvolvimento científico.

Hoje, para um completo estudo de epistemologia científica, há de se levar em conta não somente o plano metodológico mas também o político, por este jogar papel fundamental nos pressupostos. Fica mais evidente ainda para a cria da ciência com o poder: a tecnologia.

Bibliografia:

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Coleção Debates. Ed. Perspectiva, São Paulo, 2000.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

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