O perfeito e o divino

antropologia, crítica, religião, por Fernando Gregianin Testa 2 Comments »

Riviera de São Lourenço é uma cidade à beira mar, um condomínio chique criado artificalmente nas proximidades de Bertioga para férias de veraneio dos ricos de São Paulo. Ao chegar, um portal recebe entregando folhetos com instruções tipo como separar o lixo e eventos que estão a acontecer naqueles dias. Tudo é quase perfeito, daquele tipo de perfeição óbvia que todo kitsch tem: palmeiras, grama bem cortada, piscinas, prédios com guaritas e casas muito bonitas tipo comerciais de margarina. Se eu tirasse uma foto de um ângulo qualquer da varanda do apartamento que generosamente um amigo cedeu para a produção intelectual importantíssima deste que vos escreve e apresentasse a alguém ao acaso, este não saberia distinguir em que lugar do mundo se encontra a paisagem. Isto faz parte do efeito mágico do kitsch no imaginário e nos desejos profundos internalizados e naturalizados nos seres humanos que às vezes freqüento (não, provavelmente não é você que leu até aqui). Penso imediatamente no capítulo sobre o kitsch e a negação da merda que Milan Kundera escreveu em seu famoso livro A insustentável Leveza do Ser ao ver uma série de palmeiras sobre o gramado que segue a orla ao longo de todo o território do condomínio acabando exatamente onde começa o terreno de fora, onde – aí sim! – arbustos, casas esparsas e muita mata atlântica se harmonizam num caos criativo. As pessoas, mais mulatas e que vêm trabalhar neste não-lugar que é Riviera, são na maioria de Bertioga, a cidade vizinha que, no dizer do cartaz na entrada, é beneficiada com seis mil empregos com a instalação do condomínio.

Entre o intervalo de leitura de um livro e escrita de um parágrafo, na praia, quatro playboys arrogantemente corriam com quadriciclos e davam cavalos-de-pau sob os olhos invejosos de um garoto que os observava enquanto sua irmã fechava o boteco à beira-mar.

Como não pensar na miséria moral? Nestas condições, meu vício especulativo dispara automaticamente suas hipóteses investigativas sobre as condições de possibilidades da miséria moral através da elaboração de casos-tipo: se um rico utilizar seu poder para promover alguma ação boa, ele estará moralmente justificado em ter uma propriedade em Riviera? Se um pobre, ao não possuir uma casa em Riviera, estará moralmente escusado de sua inveja em ter uma casa e um quadriciclo para dar cavalos-de-pau na areia e, então finalmente, poder ele também desfrutar das delícias da arrogância aos olhos de outrem? E eu, que não tenho nem quadriciclos nem casas na praia e não sou miserável, sou moralmente justificado ao fazer esta análise e me colocar, assim, no patamar dos iluminados? Questões como estas em geral são incômodas para aquela análise plana da sociedade sob a ótica de classes.

Enquanto isso, em Bertioga, no início da noite, a quermesse organizada pela paróquia para arrecadar fundos juntava tudo que havia de disponível. As barracas de cachorro-quente, quentão e pastel infestavam de cheiro de fritura o ar, o cachorro pulguento se coçava na entrada da igreja, uma caixinha com barbante imitava o som de uma galinha maluca para um povo que se juntava na entrada da igreja para ouvir o padre dizer: “na procissão deste ano, a santa não quer tomar banho no mar como no ano passado!”. Ali, nesta beirada de igreja onde tudo se misturava: forró e vaneirão, fritura, cachorro, reza, galinha, criança, mulatos, ali mesmo, aquele povo mandava lá sua reza para seu Deus.

Riviera? Silenciava.

Tecnoprofetas e religião implícita

cre, religião, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

São, no mínimo, instigantes, as mutações da religião deste nosso tempo presente. Clifford Geertz, que certamente pode ser contado entre os antropólogos mais importantes do século passado, dizia em um artigo que não existe na atualidade o que chamam de um retorno da religião. Simplesmente porque elas nunca foram embora:

Enquanto se desenrola a história política explosiva do século nascente, o desdobramento mais notável – e o mais surpreendente – que as ciências sociais se vêem obrigadas a enfrentar na cena mundial é com certeza aquilo que se usa denominar, muitas vezes erroneamente, como “o retorno da religião”.

Erroneamente porque na verdade a religião nunca desapareceu – foi a atenção das ciências sociais que se desviou a outros campos, enquanto estiveram dominadas por uma série de pressupostos evolutivos que consideravam o compromisso com a religião uma força em declínio na sociedade, um resíduo de tradições passadas inexoravelmente erodido pelos quatro cavaleiros da modernidade: secularismo, nacionalismo, racionalização e globalização. (GEERTZ 2006)

Nada mais lúcido quando nos concentramos principalmente sobre as mais ou menos novas formas sociais que as religiões tradicionais adquirem. Entretanto não é somente nos vínculos entre fiéis e instituições que a religião se manifesta, mas em outras e diversas formas que eclodem justamente lá onde muitos diriam ser o reduto secular por excelência: nas ciências naturais e nas tecnologias. Estas novas religiosidades não são evidentes para o olho não treinado, pois se manifestam mais ou menos nos subterrâneos de outras manifestações culturais de um modo implícito. A religião implícita recebe cada vez mais atenção no meio acadêmico de estudos religiosos por demonstrar ser um instrumento conceitual particularmente eficaz na compreensão destes novos fenômenos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos tanto pelo excesso crítico interessado em desmantelar uma percepção falsa quanto pela superficialidade ingênua não interessada em ver problemas onde eles existem.

Na aparente crise das instituições, nesta nossa modernidade tardia, a apropriação, apresentação e naturalização das tecnoformas nas subjetividades tentam justamente responder àquelas questões que sempre estiveram presentes para o homem: a angústia da existência. Portanto, religião! E justamente implícita e mutante, parece ser o caso que segue. Em uma publicação sob o título The Singularity is Near (A Singularidade Está Próxima, sem tradução para o português), o cientista e engenheiro Ray Kurzweil, de fato prega uma crença inusitada. Para ele, as tecnologias irão resolver nosso principal problema: o dilema do sofrimento e da morte. Se você conseguir viver até 2029, quando chegará, então, a Singularidade: um momento único e crucial na história da humanidade na qual as tecnologias (particularmente as nano, bio, info) conseguirão produzir seres híbridos humano-técnico, ciborgues, e onde os computadores também terão consciência e “espírito”. Para Kurzweil:

“A Singularidade representará a culminação da fusão do nosso pensamento e existência biológicos com nossa tecnologia, resultando em um mundo que ainda é humano mas que transcende nossas raízes biológicas. Não haverá distinção, pós-Singularidade, entre humanos e máquinas ou entre realidade virtual e física. Se você perguntar o que ainda permanecerá humano naquele mundo, será simplesmente esta qualidade: nós somos a espécie que busca de maneira inerente estender suas conquistas (reach) para além das limitações atuais.” (KURZWEIL 2005 p.9)

A tecnologia, neste momento de transição iminente em que vivemos, seria aquilo que nós mesmos construimos e que, no entanto, nos supera indo além de nós mesmos. Ela tomará a frente das coisas deste mundo e, através dela, resolveremos todas aquelas questões que nos afligiram desde sempre: a dor, o sofrimento, a angústia, a morte. 

(to be continued…)

 

Referências

GEERTZ, Clifford. O Futuro das Religiões. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 maio 2006.

KURZWEIL, Ray. The Singularity Is Near. New York: Penguin Books, 2005.

 

Darwinismo à Sombra da “Noite Coletiva e Cultural”

Chiara Lubich, filosofia, religião, por admin No Comments »

Texto de comunicação apresentada no I Seminário NEMES apresentado por Hugo M. Barbosa.

Resumo: “A Torre de Babel” de Michael Oakeshott descreve o pragmatismo de uma sociedade que se legitima, e se estrutura, ao redor do desejo de chegar ao paraíso. O Homem moderno, apesar de comemorar sua liberdade pós-Adâmica, anseia a retomada do jardim do Édem. O maior obstáculo para a reconstrução do paraíso, pensado como um mundo perfeito sem dor ou sofrimento, são os limites impostos por uma ética transcendente, baseada na revelação de um Deus-amor. Inicia-se um processo lento e gradativo de desconstrução de “Deus”, valendo-se da racionalidade humana. Estes são os pré-supostos da simbiose estabelecida entre o ateísmo, na sua reedição mais virulenta, “o novo ateísmo”, e o Darwinismo, entendido não como teoria científica da biologia, mas como sistema epistêmico . Tento interpretar este fenômeno à luz do pensamento místico de Chiara Lubich, a “Noite Coletiva e Cultural”.

O texto completo pode ser acessado abaixo:

darwinnoite-chiarahugoisemnemes2008

Tecnologia da Informação, Cibernética e Salvação

religião, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

Este texto serviu de base em aula para discussão sobre alguns aspectos religiosos presentes no programa da informática.

Resumo: Procuramos iniciar uma investigação acerca das características religiosas presente na tecnologia da informação e cibernética, as promessas de salvação, os desejos de transcendência e as implicações éticas. Para isto utilizamos não uma análise da sociologia, mas uma investigação filosófica. Concluímos identificando que tais promessas salvíficas se apresentam como uma nova amálgama de uma carência reconciliatória que, dada a própria natureza do conhecimento da informática, performa uma substituição fortuita e precária.

O texto completo pode ser baixado aqui: 20081031-testa-fernando-salvacao-cibernetica-texto

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