Experiência Religiosa da Natureza e o Conhecimento em Chiara Lubich

Chiara Lubich, história, teologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

A comunicação apresenta alguns resultados de pesquisa desenvolvida sobre o pensamento religioso em Chiara Lubich sobre a natureza física. Após apresentar o contexto histórico e social — Trento ao final da II Guerra — no qual a experiência religiosa dessa católica italiana e fundadora do Movimento dos Focolares se desenvolveu, mostraremos os temas teológicos de fundo. Em seguida analisaremos trechos de seus escritos publicados que têm como objeto o mundo natural indicando como os conceitos e temas acima se articulam e como eles se posicionam em relação às ciências naturais e à crise ambiental.

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O problema do ser nos albores da filosofia

filosofia, por Fernando Gregianin Testa 1 Comment »

Um dos problemas mais originais do pensamento filosófico é a questão do ser. O ser foi chamado por Aristóteles como o transcendental e “o mais universal de tudo” (Metafísica, livro III, 4). A questão do ser, praticamente tão antiga quanto a própria filosofia, foi inicialmente elaborada de modo sistemático pelo pré-socrático Parmênides, que viveu entre o final do séc. VI e metade do século V a.C, é de fundamental importância, por definir o tema próprio da filosofia e o método filosófico para resolvê-lo. “Nas mãos dele a filosofia passa a ser metafísica e ontologia; já não versa mais simplesmente sobre as coisas, mas sobre as coisas enquanto são, ou seja, como entes.” (MARÍAS, p.23).
A descoberta do objeto de investigação, o ente, vem junto com o método da investigação, o noûs, que em latim poderia ser traduzido por mens, mente, pensamento, ou espírito.
Parmênides parte de uma constatação fundamental. Quando dizemos “isso é uma árvore”, ou “Eu sou um homem” nos parece evidente o que a linguagem quer dizer e não há necessidade de ir além na explicação. Entretanto, exatamente aí se esconde um enigma. Ele percebeu que ao dizer “x é y”, o conhecimento nasce na mente justamente porque X é. Se X não fosse, a mente não poderia seguir compreendendo e issa é a via impossível de ser seguida. Há, portanto, uma estreita relação entre o que as coisas são e sua manifestação no noûs. Essa é a via da verdade, das coisas que são. “Antes de ser brancas, vermelhas, quentes, as coisas simplesmente são” (MARÍAS, p.26).
Há ainda a via da doxa, ou opinião, que é baseada nos sentidos. Essa pode estar certa ou errada, mas é desprovida de noûs e considera que a mudança das coisas é dada por um vir-a-ser, mas se engana. O ser é imóvel, as coisas vêem à luz e já eram antes de aparecerem, pois o ser é eterno.
O sentido da filosofia de Parmênides é a forte relação que existe entre o ser e o espírito humano. O ser é imediato ao espírito. Ainda, há a separação entre verdade e aparência, que será decisiva para a filosofia grega posterior. Em Parmênides a verdade se expressa na relação íntima que existe entre o que é, e o noûs, o espírito ou a mente.
Nos labirintos da razão ao longo da história do pensamento, essa intuição originária parece ter se perdido. A linguagem foi jogada para o mundo dos homens, não parece haver mais relação de verdade no que se diz. De fato, nunca como antes a doxa esteve tão em voga e é difícil encontrar algum sujeito que esteja disposto a uma paciente reflexão e possua em si um desejo de verdade.
Estudar os clássicos, portanto, tem esse sentido de buscar aquele traço de verdade esquecido, tão contrário ao prurido de moda em voga hoje.

MARÍAS, Julián. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
MARCONDES, Danilo. Texos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

Discurso de defesa de mestrado

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Depois de um longo período de aparente inatividade neste blog, segue o discurso de defesa de mestrado sob o título Deus sob as Coisas: o Pensamento Espiritual de Chiara Lubich sobre a Natureza.

Para acessar o texto completo, clique aqui.

Boaventura e o conhecimento

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Na tradição filosófica e teológica do ocidente, o desejo sempre jogou papel fundamental como motor originário da busca do conhecimento. A afirmação, talvez, mais famosa neste sentido está  na abertura do primeiro livro da Metafísica de Aristóteles. Cada um a seu modo, Agostinho, Tomás e Boaventura, também reconheceram no desejo o motor originário do conhecimento. Entretanto, se o conhecimento está associado ao desejo, bastaria desejar para conhecer? Na estrutura do pensamento do cristianismo, este desejo poderia se enganar quanto ao seu objeto, abrindo espaço para a idéia da necessidade da graça para que ele seja correto. A graça, atuando sobre o desejo, produziria a vontade correta, que orientaria a intelecção para a verdade, que existe plenamente só em Deus. A graça é, portanto, a garantia para que o conhecimento seja orientado à verdade. Boaventura parece concordar com isto ao dizer : “A graça é o princípio da retidão da vontade e da iluminação da inteligência.” (BOAVENTURA, Itinerarium, I). Mas ao contrário de se traduzir em um triunfo da razão pela garantia de um Deus, como o faria muito posteriormente Descartes, Boaventura reconhece que o conhecimento neste mundo é sempre precário. O erro, portanto, tem sua origem na situação contingente humana, sendo necessária a graça para orientá-lo, modulado pelo consentimento da vontade humana para isso (Cf. BOAVENTURA, Itinerarium I.7). Parece que a própria razão está marcada pela condição da precariedade da condição humana e por isso é que, segundo Boaventura, o processo de conhecimento da verdade se coloca em um continuum com a santidade e a contemplação. A idéia do seu Itinerarium Mentis in Deum é essa, a de que a razão, através da correta disposição da vontade pelo auxílio da graça, se coloque em via à contemplação (BONI 2008), pois para ele, a plena verdade pode existir somente em Deus. Portanto, a graça é o transcendental através do qual a cognição atinge o conhecimento, que se traduz em Boaventura em argumentações racionais. O exercício da razão se torna um processo indistinto da própria transcendência e veículo da verdade. As proposições e argumentações, o encadeamento lógico presente no trecho do Itinerarium tem o objetivo, como o título diz, de elevar o espírito humano até o máximo de sua possibilidade. A partir daí a razão começará a ver nas próprias coisas do mundo físico a forma exemplar, a estampa, do Criador, o seu modelo.

Bibliografia

BONI, Luís A. Para uma leitura do ‘Itinerarium mentis in Deum’ de S Boaventura. Revista Portuguesa de Filosofia, v. 64, p. 437-463, 2008.

BOAVENTURA. Escritos Filosófico-Teológicos. Tradução Luis Alberto de Boni, Jerônimo Jerkivic. Porto Alegre: Edipucrs, 1998. Contém os escritos: Brevilóquio; Itinerarium Mentis in Deum; Redução das Ciências à Teologia; Cristo, Único Mestre de Todos.

GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. (Paris: 1986) São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Você sabe que sabe?

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Ao investigar aquilo que sabemos daquilo que não sabemos, há uma divertida distinção. Há aquelas coisas que sabemos que sabemos, usadas no dia a dia, por exemplo dirigir um automóvel, ou fazer contas no supermercado.
Há outras coisas que não sabemos que sabemos, tal como regras gramaticais implícitas na língua, para alguém que nunca estudou gramática ou a operação do controle da tevê para uma criança que ainda não fala.
Há ainda aquelas coisas que sabemos que não sabemos. Tal como fazer cálculos de matemática complexa, ou tocar determinado instrumento. Nestas, saber que não conhecemos já é uma forma de conhecimento. Aqui a ignorância é uma maneira antecipada de conhecimento, e saber-se ignorante, é conhecer algo, o limite, que diz parte daquilo que não sabemos.
Entretanto, há aquelas coisas que não sabemos que não sabemos. Esta é a mais radical das ignorâncias, o domínio do absolutamente desconhecido. Neste nem é possível citar um exemplo, pois dar um exemplo seria já conhecê-lo um pouco.

Apresentação de Cosmologia e Teologia

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Este breve documento é um instrumento em uma aula de apresentação feita à Unitalo no mês passado. Trata brevemente e de maneira sucinta interações entre ciência e teologia com um pequeno debate final sobre o modelo padrão.

Apresentação Cosmologia e Teologia

O perfeito e o divino

antropologia, crítica, religião, por Fernando Gregianin Testa 2 Comments »

Riviera de São Lourenço é uma cidade à beira mar, um condomínio chique criado artificalmente nas proximidades de Bertioga para férias de veraneio dos ricos de São Paulo. Ao chegar, um portal recebe entregando folhetos com instruções tipo como separar o lixo e eventos que estão a acontecer naqueles dias. Tudo é quase perfeito, daquele tipo de perfeição óbvia que todo kitsch tem: palmeiras, grama bem cortada, piscinas, prédios com guaritas e casas muito bonitas tipo comerciais de margarina. Se eu tirasse uma foto de um ângulo qualquer da varanda do apartamento que generosamente um amigo cedeu para a produção intelectual importantíssima deste que vos escreve e apresentasse a alguém ao acaso, este não saberia distinguir em que lugar do mundo se encontra a paisagem. Isto faz parte do efeito mágico do kitsch no imaginário e nos desejos profundos internalizados e naturalizados nos seres humanos que às vezes freqüento (não, provavelmente não é você que leu até aqui). Penso imediatamente no capítulo sobre o kitsch e a negação da merda que Milan Kundera escreveu em seu famoso livro A insustentável Leveza do Ser ao ver uma série de palmeiras sobre o gramado que segue a orla ao longo de todo o território do condomínio acabando exatamente onde começa o terreno de fora, onde – aí sim! – arbustos, casas esparsas e muita mata atlântica se harmonizam num caos criativo. As pessoas, mais mulatas e que vêm trabalhar neste não-lugar que é Riviera, são na maioria de Bertioga, a cidade vizinha que, no dizer do cartaz na entrada, é beneficiada com seis mil empregos com a instalação do condomínio.

Entre o intervalo de leitura de um livro e escrita de um parágrafo, na praia, quatro playboys arrogantemente corriam com quadriciclos e davam cavalos-de-pau sob os olhos invejosos de um garoto que os observava enquanto sua irmã fechava o boteco à beira-mar.

Como não pensar na miséria moral? Nestas condições, meu vício especulativo dispara automaticamente suas hipóteses investigativas sobre as condições de possibilidades da miséria moral através da elaboração de casos-tipo: se um rico utilizar seu poder para promover alguma ação boa, ele estará moralmente justificado em ter uma propriedade em Riviera? Se um pobre, ao não possuir uma casa em Riviera, estará moralmente escusado de sua inveja em ter uma casa e um quadriciclo para dar cavalos-de-pau na areia e, então finalmente, poder ele também desfrutar das delícias da arrogância aos olhos de outrem? E eu, que não tenho nem quadriciclos nem casas na praia e não sou miserável, sou moralmente justificado ao fazer esta análise e me colocar, assim, no patamar dos iluminados? Questões como estas em geral são incômodas para aquela análise plana da sociedade sob a ótica de classes.

Enquanto isso, em Bertioga, no início da noite, a quermesse organizada pela paróquia para arrecadar fundos juntava tudo que havia de disponível. As barracas de cachorro-quente, quentão e pastel infestavam de cheiro de fritura o ar, o cachorro pulguento se coçava na entrada da igreja, uma caixinha com barbante imitava o som de uma galinha maluca para um povo que se juntava na entrada da igreja para ouvir o padre dizer: “na procissão deste ano, a santa não quer tomar banho no mar como no ano passado!”. Ali, nesta beirada de igreja onde tudo se misturava: forró e vaneirão, fritura, cachorro, reza, galinha, criança, mulatos, ali mesmo, aquele povo mandava lá sua reza para seu Deus.

Riviera? Silenciava.

Tecnoprofetas e religião implícita

cre, religião, tecnologia, por Fernando Gregianin Testa No Comments »

São, no mínimo, instigantes, as mutações da religião deste nosso tempo presente. Clifford Geertz, que certamente pode ser contado entre os antropólogos mais importantes do século passado, dizia em um artigo que não existe na atualidade o que chamam de um retorno da religião. Simplesmente porque elas nunca foram embora:

Enquanto se desenrola a história política explosiva do século nascente, o desdobramento mais notável – e o mais surpreendente – que as ciências sociais se vêem obrigadas a enfrentar na cena mundial é com certeza aquilo que se usa denominar, muitas vezes erroneamente, como “o retorno da religião”.

Erroneamente porque na verdade a religião nunca desapareceu – foi a atenção das ciências sociais que se desviou a outros campos, enquanto estiveram dominadas por uma série de pressupostos evolutivos que consideravam o compromisso com a religião uma força em declínio na sociedade, um resíduo de tradições passadas inexoravelmente erodido pelos quatro cavaleiros da modernidade: secularismo, nacionalismo, racionalização e globalização. (GEERTZ 2006)

Nada mais lúcido quando nos concentramos principalmente sobre as mais ou menos novas formas sociais que as religiões tradicionais adquirem. Entretanto não é somente nos vínculos entre fiéis e instituições que a religião se manifesta, mas em outras e diversas formas que eclodem justamente lá onde muitos diriam ser o reduto secular por excelência: nas ciências naturais e nas tecnologias. Estas novas religiosidades não são evidentes para o olho não treinado, pois se manifestam mais ou menos nos subterrâneos de outras manifestações culturais de um modo implícito. A religião implícita recebe cada vez mais atenção no meio acadêmico de estudos religiosos por demonstrar ser um instrumento conceitual particularmente eficaz na compreensão destes novos fenômenos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos tanto pelo excesso crítico interessado em desmantelar uma percepção falsa quanto pela superficialidade ingênua não interessada em ver problemas onde eles existem.

Na aparente crise das instituições, nesta nossa modernidade tardia, a apropriação, apresentação e naturalização das tecnoformas nas subjetividades tentam justamente responder àquelas questões que sempre estiveram presentes para o homem: a angústia da existência. Portanto, religião! E justamente implícita e mutante, parece ser o caso que segue. Em uma publicação sob o título The Singularity is Near (A Singularidade Está Próxima, sem tradução para o português), o cientista e engenheiro Ray Kurzweil, de fato prega uma crença inusitada. Para ele, as tecnologias irão resolver nosso principal problema: o dilema do sofrimento e da morte. Se você conseguir viver até 2029, quando chegará, então, a Singularidade: um momento único e crucial na história da humanidade na qual as tecnologias (particularmente as nano, bio, info) conseguirão produzir seres híbridos humano-técnico, ciborgues, e onde os computadores também terão consciência e “espírito”. Para Kurzweil:

“A Singularidade representará a culminação da fusão do nosso pensamento e existência biológicos com nossa tecnologia, resultando em um mundo que ainda é humano mas que transcende nossas raízes biológicas. Não haverá distinção, pós-Singularidade, entre humanos e máquinas ou entre realidade virtual e física. Se você perguntar o que ainda permanecerá humano naquele mundo, será simplesmente esta qualidade: nós somos a espécie que busca de maneira inerente estender suas conquistas (reach) para além das limitações atuais.” (KURZWEIL 2005 p.9)

A tecnologia, neste momento de transição iminente em que vivemos, seria aquilo que nós mesmos construimos e que, no entanto, nos supera indo além de nós mesmos. Ela tomará a frente das coisas deste mundo e, através dela, resolveremos todas aquelas questões que nos afligiram desde sempre: a dor, o sofrimento, a angústia, a morte. 

(to be continued…)

 

Referências

GEERTZ, Clifford. O Futuro das Religiões. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 maio 2006.

KURZWEIL, Ray. The Singularity Is Near. New York: Penguin Books, 2005.

 

Protegido: Tudo é sofrido

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Protegido: Cansado

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